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O legado de Bush: neo-wilsonianismo e o inimigo virtual

Arthur Ituassu
- 15/02/2008

“Como serei lembrado?”. A pergunta clássica que caracteriza os últimos momentos de convivência com o poder é uma obsessão tradicional de presidentes norte-americanos. Seguindo a compulsão nacional pela memória, eles normalmente mudam os seus escritórios da Casa Branca para fundações em seus nomes, onde reúnem livros, documentos e pesquisadores do período em que estiveram no cargo. Há 10 meses para entregar o governo dos Estados Unidos, ainda é cedo falar da fundação de George Bush, mas não de seu legado.
    Este foi o tema principal da entrevista que o presidente dos EUA concedeu a Matt Frei (BBC-Washington), que pode ser vista na íntegra pelo site da rede de notícias britânica. Com índices de popularidade baixíssimos dentro e fora dos Estados Unidos, com a exceção da África, onde a imagem do presidente (e do país) é reforçada pela ajuda humanitária de Washington, Bush traz à tona a célebre idéia eternizada por Fidel Castro com a frase “a história me absolverá”.
    De fato, o governo Bush fez da África o principal alvo da ajuda humanitária norte-americana. São africanos 12 dos 15 países que recebem fundos do Plano de Emergência Contra a Aids, um programa de cinco anos orçado em US$15 bilhões. Nove países africanos estão entre os 16 receptores também de um projeto da Casa Branca relacionado com as metas do milênio da ONU.
    Desde que tomou posse, o governo Bush triplicou a ajuda humanitária para a África – os fundos para programas ligados à Aids, por exemplo, saíram de US$1 bilhão para US$ 6 bilhões ao ano. Não à toa, o presidente norte-americano iniciou uma excursão ao continente africano na última sexta-feira, 15 de fevereiro. Não deixa de ser irônico que, em fins de mandato, somente na África Bush tem a certeza de que será bem recebido. Uma pesquisa recente (Pew) em 47 países mostrou que a popularidade dos Estados Unidos é excepcionalmente alta entre os africanos, que apresentam visões sobre este país muitas vezes melhores que a dos próprios norte-americanos.
    De qualquer forma, George Bush é claro ao dizer que não dá importância às pesquisas de opinião, e a afirmação condiz com o seu discurso, uma referência clara à linha wilsoniana da política externa norte-americana.(1) Na entrevista, Bush ressalta a sua visão de mundo como uma “luta ideológica”, um conflito contra uma ideologia que dá lugar a terroristas, regimes tiranos, ditadura, censura, intolerância religiosa e política. Para o presidente, com o passar da história, um olhar “mais objetivo” será lançado sobre o seu período na Casa Branca. E assim ele será lembrado, por exemplo, como o primeiro presidente a propor a solução de dois Estados para o conflito Israel-Palestina.
    Como disse recentemente à imprensa: “Nós ainda debatemos o legado do primeiro presidente chamado George, e isso foi há uns duzendos anos.”
    Em fins de mandato, George Bush está certo de que o Iraque será “bem-sucedido”. Reconhece os erros militares, mas os põe na conta do ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld: “Meu pessoal me disse que tinha em mãos tropas suficientes”, afirmou o presidente norte-americano. “O importante é que os legislativos estão começando a trabalhar.”
    Sobre Guantanamo e Abu Ghraib, Bush reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com os direitos humanos, ressaltando apenas que este é um contexto ameaçador. Onde a ameaça está presente a todo momento. O inimigo agora pode ser qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer instante. Nessa situação, afirma George Bush, interrogatórios “dentro da lei” são necessários para a garantia da segurança. Ao terminar, o presidente lançou vôo sobre a tradicional missão que a política norte-americana incorpora: “Estamos prontos para liderar, para aceitar responsabilidades. Esta nação é levada pelo bem.”
    O que incomoda, como afirma Matt Frei, mas não a Bush, é o oceano de distância entre a retórica e a realidade.


Notas

(1) Para saber mais sobre o wilsonianismo na política externa americana leia: Ituassu, A. "Idéias e política externa americana: uma discussão", in Contexto Internacional, Vol.23, n.2, 2001, p.361-398; ou Mead, W.R. Special Providence, 2002.









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