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A Zâmbia é aqui, na Venezuela
Arthur Ituassu -
22/02/2008
O professor de Harvard Jeffry
Frieden conta em seu último livro (Global
Capitalism: Its Fall and Rise in
the Twentieth Century, Norton, 2006), a ser lançado no Brasil
pela editora Zahar no fim de abril, a história fracassada de Kenneth
Kaunda, que comandou a Zâmbia por quase 30 anos após a independência do
país em outubro de 1964, presidindo um fracasso econômico de proporções
catastróficas. Ao longo do seu governo, Kaunda levou a Zâmbia a um
regime de partido único completamente dependente do seu mais abundante
recurso natural: o cobre. Qualquer semelhança com a revolução
bolivarista de Hugo Chávez na Venezuela, neste caso, não é mera
coincidência.
Frieden conta que a Zâmbia, após a independência,
tinha tudo para prosperar: extraordinárias riquezas minerais e uma
liderança hábil e comprometida. O cinturão do cobre se estendia por
mais de 160 quilômetros, ao longo da fronteira com o Congo, e abrigava
uma série de cidades e povoados prósperos dedicados à mineração. Como
se dizia na época, o novo país havia “nascido em berço de cobre”.
Mas os estáveis ganhos provenientes das minas de
cobre tiveram conseqüências perversas sobre o desenvolvimento da
economia no longo prazo. O governo, prevendo que o dinheiro do cobre
continuaria fluindo para a economia do país, não sofria pressões para
desenvolver outros setores produtivos. Os lucros fáceis gerados pelo
cobre encorajavam os zambianos a investir grande parte do seu tempo no
metal. Os mineiros esperavam altos salários, os moradores das cidades
queriam empregos bem remunerados no governo e comida barata, e os
zambianos, em geral, contavam com os programas sociais e a proteção
política. Como filhos de pais ricos, que se dedicam a gastar a herança
em vez de descobrir como ganhar o próprio dinheiro, os zambianos
gastaram o dinheiro fácil da mineração em vez de planejar um futuro
econômico que não dependesse exclusivamente dessa riqueza mineral.
Assim, o governo de Kaunda incentivou o
desenvolvimento do setor de cobre enquanto tentava controlar as
operações das empresas mineradoras estrangeiras que feriam os
sentimentos nacionalistas. As empresas de mineração eram obrigadas a
empregar zambianos em cargos de gerência e a pagar mais impostos ao
governo. As novas políticas garantiam empregos à população, que crescia
rapidamente, ao passo que o governo passou a gastar mais em programas
sociais, educação e saúde.
A Zâmbia, como a maioria dos países em
desenvolvimento no fim da década de 1960, não queria mais que os
estrangeiros controlassem a produção de matérias-primas. Como a maior
parte dos líderes africanos, Kaunda acreditava que um controle rígido
da economia era pré-requisito para o progresso social do país. O
presidente passou a promover, então, um humanismo que chamou de
“diretriz filosófica” da Zâmbia. Adotou o socialismo como “instrumento
para a construção de uma sociedade humanista”. Com o objetivo, de
acordo com suas próprias palavras, de levar o país “do capitalismo ao
humanismo, por meio do socialismo”, Kaunda lançou uma nova orientação
econômica em 1968 durante um discurso em Mulungushi, próximo à capital
Lusaka. Sob o novo programa, o Estado assumiu o controle das minas de
cobre e, em poucos anos, o presidente havia nacionalizado diversas
empresas de outros setores importantes da economia: indústria,
comércio, transporte, construção e outros.
O cerne das reformas de Mulungushi era nacionalista, e não socialista.
Devido ao tamanho das imensas empresas estrangeiras e do pequeno setor
privado da Zâmbia, seria necessário, segundo Kaunda, “conceder aos
empreendimentos zambianos certas áreas onde pudessem operar sem a
competição das empresas expatriadas”. O objetivo era, nas próprias
palavras do presidente:
Retirar a dominação estrangeira de nossa vida econômica, por meio do
controle da maioria dos meios de produção e dos serviços mais
importantes, estabelecendo, ao mesmo tempo, uma base sólida para o
desenvolvimento dos negócios genuinamente zambianos.
As minas de cobre nacionalizadas passaram a gerar
uma renda enorme para o governo. O cobre era responsável por mais de
90% das exportações, metade da receita do Estado e mais de 30% do
produto total da economia. O governo gastava a riqueza do cobre
livremente para expandir o setor educacional, qualificar cidadãos ao
funcionalismo público, melhorar a saúde do povo e fortalecer os
serviços públicos. Os lucros do mineral também possibilitaram pagar
salários mais altos aos poderosos donos de minas do país, que haviam
estado à frente do movimento de independência liderado por Kaunda. Os
recursos oriundos do cobre permitiram à União conceder altos salários
aos trabalhadores urbanos e subsidiar os preços da cesta básica. O
governo não precisava se preocupar com a falta de competitividade das
novas indústrias, uma vez que o cobre fornecia praticamente todos os
ganhos das exportações.
O dinheiro do cobre permitiu à administração de
Kaunda solidificar sua base de apoio entre empresários, mineiros,
servidores públicos e eleitores em geral. Em 1972, o presidente
decretou que, dali por diante, o Estado teria um único partido, com o
seu Partido Unido da Independência Nacional (Unip, na sigla em inglês)
no poder. A organização concedia proteção em troca de apoio político,
dando
prioridade aos seus membros e defensores na disputa por empregos no
imenso setor público, na concessão de empréstimos baratos e nos
serviços públicos; e negando acesso aos transportes, mercados e
assistência médica àqueles que não contribuíssem com o partido.
Créditos agrícolas eram utilizados para construir base de apoio e, como
disse um filiado, o objetivo era “transformar os
melhores homens do partido em agricultores, pois não podemos sustentar
quem não pertence ao Unip”. As lideranças do grupo se isolaram e
expulsaram as alas opositoras, consolidando o controle sobre o sistema
político, a burocracia e a mídia. “Até 1975”, escreveu o pesquisador
Michael Bratton, “o Unip havia se transformado de um partido de
participação em um de controle”.
O sucesso de Kaunda começou a desmoronar mesmo com a
consolidação do seu Estado de partido único. Os preços do cobre subiram
depois da independência e, até 1974, haviam dobrado em relação a 1964.
Porém, baixaram consideravelmente depois de 1975, apresentando quedas
em alguns anos e, em outros, mal acompanhando a inflação. Preços
estagnados se tornaram sinônimo de receitas governamentais estagnadas,
mas a base de apoio de Kaunda continuava a exigir privilégios. Logo, a
rede de apoio à sua administração começou a se desintegrar, uma vez que
o governo não dispunha mais de recursos financeiros para mantê-la
unida. Com a depreciação dos preços do cobre, as empresas de mineração
do Estado tentaram conter os salários, mas o sindicato dos
trabalhadores das minas era poderoso o suficiente para bloquear essa
medida. E enquanto as receitas do cobre caíam, o governo precisava
aumentar a produção para exportação, mas as manufaturas não tinham a
menor condição de competir nos mercados internacionais. O descaso em
relação à agricultura havia baixado a produtividade, de forma que 25%
da comida do país precisava ser comprada no exterior – mesmo diante da
escassez de moeda estrangeira para pagar por essas importações. O
inchado setor público, que era responsável por 75% dos empregos
formais, precisava ser reduzido, mas os empregados do governo eram
altamente sindicalizados, além de serem fundamentais para a manutenção
do partido no poder.
As escolhas feitas nos primeiros anos passaram a
assombrar Kaunda. O governo havia usado o dinheiro do cobre para
comprar o apoio político e a condescendência de mineiros, indústrias
protegidas, beneficiários dos serviços públicos, consumidores de
alimentos subsidiados e os funcionários públicos. Porém, quando os
lucros do cobre diminuíram, a administração de Kaunda precisou reduzir
o que repassava aos mineiros, funcionários públicos e outros clientes
tradicionais da generosidade governamental. O governo da Zâmbia havia
se tornado refém político de sua base de apoio – e não conseguia mais
satisfazê-la.
À medida que falia, era forçado a deixar
de lado seus compromissos com o desenvolvimento e o bem-estar social.
Em outubro de 1985, com a economia em crise e sofrendo pressões do FMI
e do Banco Mundial, o governo se voltou para as reformas, liberalizando
vários preços, abandonando os controles sobre a moeda, limitando os
salários dos funcionários públicos, despedindo empregados do governo e
reduzindo os subsídios que mantinham os preços dos alimentos
artificialmente baixos – em especial o valor do principal alimento do
país, o fubá.
As medidas geraram descontentamento e revoltas
populares no cinturão do cobre, além de uma série de greves que por
pouco não provocaram a paralisação do país. Em maio de 1987,
enfrentando problemas como a degradação contínua do apoio popular e o
descontentamento crescente no próprio partido, Kaunda rejeitou as
reformas e inverteu o curso. Mas o governo não dispunha dos recursos
necessários para satisfazer seus adversários ou mesmo para manter sua
base de apoio. Quando os salários ficaram defasados em relação aos
preços, as greves e revoltas populares ressurgiram. Frederick Chiluba,
o chefe do sindicato dos trabalhadores da federação, aproveitava
qualquer oportunidade para atacar o governo e insistia no fim do regime
de partido único. Em junho de 1990, ocorreram novas revoltas por causa
dos alimentos, e o preço do fubá subiu de novo. Enquanto isso, a já
desestabilizada vida política do país ficou ainda mais volátil, em
função da epidemia de Aids que assolava a África. Até 1991, mais de 30%
de todas as mulheres grávidas que viviam nas cidades eram soropositivas
e, segundo as estimativas, 20% dos adultos zambianos estavam
contaminados. O governo de Kaunda não apenas dirigiu o colapso da
economia, como também teve certa responsabilidade pelas mortes
terríveis de grande parcela da população.
O presidente finalmente concordou com a realização
de eleições multipartidárias. Em outubro de 1991, o Movimento pela
Democracia Multipartidária (MMD, em inglês), comandado pelo líder
sindicalista Chiluba, venceu o partido de Kaunda com o triplo dos
votos. No cinturão do cobre, Chiluba teve 90% dos votos, mas a derrota
foi esmagadora em toda parte; das nove províncias da Zâmbia, Kaunda só
venceu em uma. Depois de quase 40 anos como líder nacional, primeiro na
luta pela independência e depois como seu único presidente, Kenneth
Kaunda deixou o cargo. A Zâmbia havia se tornado bem mais pobre do que
na época da independência.
Em 1965, ao comemorar a criação do novo
Estado, a população da Zâmbia tinha motivos para estar otimista. O país
era uma das ex-colônias africanas em melhor situação – não era rica,
mas era próspera e promissora. Na época, Zâmbia e Coréia do Sul
apresentavam níveis de desenvolvimento semelhantes, mas a Zâmbia tinha
muitas reservas de cobre e seu governo era honesto e gozava de
credibilidade, enquanto a Coréia do Sul não tinha nenhum recurso
extraordinário, e seus líderes eram desprezados e ridicularizados.
Trinta anos depois, a renda do zambiano médio não chegava nem à metade
da verificada na época da independência, e Kaunda, desacreditado, foi
derrotado nas eleições. Na mesma época, a Coréia do Sul já podia ser
considerada 18 vezes mais rica que a Zâmbia, e um zambiano levava, em
média, um ano para produzir o que um coreano fabricava em três semanas
de trabalho.
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