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Republicanismo e democracia no
Brasil
Arthur Ituassu -
31/03/2008
Apesar de muita gente achar que é tudo a mesma coisa, republicanos e
democratas são sujeitos políticos diferentes. Uma vez em Washington, às
vésperas do pleito que definiria a reeleição de George W. Bush, visitei
a sede dos dois partidos na capital americana. Encontrei à minha
espera alguém de terno azul impecável, gel no cabelo e uma apresentação
feita em computador, entre os republicanos, e outro de calça jeans,
blazer surrado e uma lata de Coca-Cola na mão, entre os democratas, me
perguntando: “O que você veio fazer aqui?”
Generalizações à parte, republicanos e democratas
têm por definição posições diferentes para todos os grandes assuntos da
política, que envolvem a relação do Estado com o cidadão, a sociedade,
o mercado, o mundo etc. Mas isso não é tão simples assim. A
diferenciação, por exemplo, entre as posições políticas com
relação ao tamanho do Estado se torna obscura quando se percebe que
governos republicanos, que teoricamente defenderiam “Estados menores”,
têm há vários mandatos ampliado os gastos públicos, em especial nas
áreas de segurança e militar. Os dois principais exemplos disso são as
gestões de George W. Bush e Ronald Reagan. Ao mesmo tempo, a grande
reforma fiscal feita no setor público norte-americano recente foi obra
de um democrata: Bill Clinton.
Há, no entanto, diferenças. O democrata acha que a
pobreza deve ser combatida por uma ação forte do Estado na área social,
por exemplo. O republicano defende que o mesmo assunto deve ser tratado
prioritariamente por mecanismos de incentivo ao mercado. O democrata
pensa o setor público como uma escolha do cidadão. O republicano ataca
a presença do Estado que não dá direito de escolha ao cidadão.
Democratas vêem o Estado como a virtude, em um contexto de liberdade.
Republicanos vêem a liberdade como a virtude, no contexto do Estado.
A base, no entanto, é fixa, mas as posições variam
no tempo. Republicanos já foram isolacionistas. Se hoje fazem guerra,
as duas maiores delas foram lutadas por presidentes democratas: Woodrow
Wilson e Franklin Roosevelt. O democrata Bill Clinton foi um baluarte
da globalização. A democrata Hillary Clinton, se presidente, promete
defender os trabalhadores norte-americanos da economia global.
Alexander Hamilton, um dos ícones preferidos do GOP (Grand Old Party,
como é conhecido o Partido Republicano nos Estados Unidos), defendeu
mais governo durante a formação do Estado norte-americano e brigou com
Thomas Jefferson sobre a necessidade de um banco central para os EUA.
Jefferson preferia ver o país como uma república de homens simples do
campo. Hoje, republicanos defendem a proteção e ampliam os subsídios
aos fazendeiros do Sul do país, produtores de milho, algodão, laranja
etc. O mesmo Sul que já foi mais identificado com os democratas, dada a
maior aproximação relativa do partido com o movimento pelos direitos
civis de Martin Luther King nos anos 1960.
Uma das saídas para encontrar a diferenciação entre
republicanos e democratas é utilizar a dicotomia liberal/conservador,
prestando-se a atenção para o fato de que o termo “liberal” tem um
significado diferente nos Estados Unidos daquele que tem no Brasil.
“Liberal” nos EUA é aquele normalmente mais favorável a uma atuação
direta do Estado no alívio da pobreza e da desigualdade, por exemplo. O
conservador, por outro lado, pode argumentar que a ação interventora do
Estado é causadora de pobreza e desigualdade, porque impõe restrições à
liberdade.
O problema é que muitas vezes o democrata é
conservador – apesar da versão republicana e liberal ser mais rara.
Jimmy Carter, por exemplo, é considerado um dos presidentes democratas
mais conservadores da história. O republicano William McKinley fez uma
“intervenção humanitária” em Cuba, em 1898.
No Brasil, também temos “liberais” e conservadores.
PT e PSDB têm programas sociais mais fortes, e por isso poderiam ser
chamados de “liberais”, no sentido norte-americano; são os nossos
progressistas – ao menos na intenção. PFL e PMDB são velhos
conservadores da cena política brasileira, com ênfases no mercado, nas
indústrias, no setor nacionalista, nas estatais, nos grandes
agricultores.
No entanto, temos também liberais e interventores –
agora sim, liberais no sentido local, como defensores de uma
participação menor do Estado na economia. Sem dúvida alguma, PSDB e PFL
têm programas mais liberais; PT e PMDB, mais intervencionistas – e não
é à toa que as alianças foram assim forjadas. Liberais que defendem
menor participação do Estado na economia podem ser progressistas – e
normalmente o fazem reforçando a necessidade do Estado estar voltado
prioritariamente para a geração de bens públicos. Defensores de uma
intervenção maior do Estado na economia podem ser conservadores – e
normalmente o fazem pela defesa do apoio estatal à produção industrial,
agrícola, tecnológica etc.
Tudo vai depender, de fato, do caminho que se
escolhe, e, vale dizer, nesse contexto a complexidade é bem-vinda.
Desde que não confundida com proliferação de legendas, a complexidade,
em vez de confundi-lo, amplia o leque de opções ao cidadão. Se há algo
que a política norte-americana pode ensinar ao mundo é que a
pluralidade de opções não depende do número de legendas.
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