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Old Goa
Goa, Índia de todos os santos: uma jornada em busca da herança portuguesa e das praias do Mar Arábico

Arthur Ituassu - 29/02/2008

PANAJI, GOA - Dois anos antes de Pedro Álvares Cabral partir de Lisboa, na viagem que o faria “descobridor do Brasil”, Vasco da Gama inaugurou a rota portuguesa em direção à Índia. Cruzando o Cabo da Boa Esperança dez anos depois do pioneiro Bartolomeu Dias, o navegador chegou a Calicut – hoje Kozhikode, no estado de Kerala – em 20 de maio de 1498. Estava aberto o caminho que levaria os portugueses ao Sul da Ásia.
     Em Cochin, ao norte de Calicut, onde Vasco da Gama estivera alguns anos antes, Afonso de Albuquerque conseguiu erguer o primeiro forte português na região em 1503. Em busca de rotas comerciais e encontrando – diferentemente de Cabral no Brasil – dura resistência em um local bastante povoado, os portugueses acabaram se estabelecendo ainda mais ao norte da costa ocidental indiana, no que é hoje o estado de Goa, colônia portuguesa durante 450 anos, entregue à Índia somente em 1961.
     Em Panaji, capital do estado, é possível visitar a imponente Igreja da Imaculada Conceição, onde missas em português são celebradas aos domingos. Na biblioteca pública da cidade, chamada Instituto Menezes Braganza, um visitante não chega aos livros sem antes passar por um rol com paredes de azulejo representando versos (transcritos) de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Em Goa, come-se camarão com leite de côco e pimenta, e as praias repletas de coqueiros são a atração principal para os mais de dois milhões de turistas indianos e estrangeiros que o estado recebe todo ano. Para um brasileiro, Goa é como um espelho que reflete uma imagem diferente.
     — Nossa identidade é goense, diz Jeanette Afonso, uma professora de português de meia-idade em Panaji. Jeanette é também proprietária de uma pequena pousada no seu “Cantinho dos Afonsos”, uma casa amarela geminada no Quarteirão Antigo, o centro histórico da capital. Nas noites sem sono, ela costuma passear de camisola pela rua de paralelepípedo na qual está a Igreja de São Francisco de Assis, que abençoa o ambiente com história. Nela está o enorme crucifixo que dava autoridade aos julgamentos da Inquisição, que atuou em Goa de 1560 a 1774. — Nossa comida é goense. Não é portuguesa, nem indiana, é goense. Não somos portugueses. Somos sim indianos, mas também somos goenses.
     Como Goa também é Índia, os problemas nacionais se apresentam de forma muito clara no estado – o que acaba o tornando ainda mais familiar para um brasileiro. Como no Brasil, o mais vergonhoso dos problemas é a disparidade de renda. Em Goa, alguns (poucos) indianos dormem em resorts luxuosos caríssimos para qualquer cidadão médio ocidental, outros (muitos) vagam pelas praias atrás de esmola, ou tentam ganhar a vida vendendo algo ou enganando algum estrangeiro trouxa – muitas vezes fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.
     A falta de formação educacional também é um problema, em especial entre as mulheres. Em um país onde o índice de analfabetismo entre adultos está acima dos 40%, as praias de Goa são tomadas por uma grande quantidade de meninas de 15 a 25 anos que vendem bijuterias, nunca foram à escola e aprenderam inglês na praia.
    — Eu nunca fui à escola, e tenho que trabalhar o dia inteiro porque meu marido não fala inglês, e como não fala inglês não consegue um emprego em Goa. Ele fica em casa o dia inteiro com a criança, conta Nisha Arand, de 21 anos, que também faz tatuagem em pés e mãos de turistas na praia de Palolem, no sul do estado.
    Os conflitos religiosos, no entanto, um problema recorrente no Sul da Ásia desde a dissolução do Império Britânico, não estão presentes em Goa, onde crenças variadas e misturadas convivem pacificamente, como no Brasil. Hindus, muçulmanos, católicos e outros dividem o menor estado da Índia sem que se tenha notícia de rivalidade. Templos históricos, em especial hindus e católicos, são visitados e respeitados por gente de todas as religiões.
     Até mesmo um brasileiro pode se sentir em casa na Índia, e a velha máxima do historiador britânico E. P. Thompson sobrevive: “Todas as influências do mundo convergem para a sociedade indiana: hindus, muçulmanos, cristãos, seculares, stalinistas, liberais, maoístas, socialistas democratas, ghandianos. Não há um pensamento que esteja sendo pensado no Ocidente ou no Oriente que não está em ebulição em uma mente indiana.”
     É certo que a cultura explica muito coisa. Explica a discriminação econômica e social vergonhosa em Goa, na Índia e no Brasil; o mal tratamento às mulheres; talvez a tolerância religiosa de goenses e brasileiros. Explica, mas não justifica o que não deve justificar. Como afirma o pensador indiano Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, os problemas sociais não devem ser postos fora do alcance da cultura, mas sim como seus alvos principais – em especial em sociedades ricas e complexas como a Índia, e o Brasil.
     É aqui, na complexidade, que brasileiros e indianos devem achar o seu modo de vida pacífico, justo e respeitoso para com o estrangeiro. Esta, sozinha, seria a maior contribuição que ambas as nações poderiam oferecer ao mundo, o qual corretamente vêem como injusto. Ambas as culturas, por meio de suas interferências, podem fazer da “política” o que bem entenderem, de uma prática que divide, reparte, separa, para outra que integra, sob um manto de paz, justiça e respeito pelo outro – algo que retoma a idéia de Octávio Paz de tornar a política o esforço de transformar a sociedade em poesia pelo exercício criativo da liberdade (aqui como um caminho, e não um fim). Não é porque outros tomaram uma trajetória equivocada que teremos que segui-los. Entre bombas atômicas e escolas públicas de excelência, vale lembrar o que disse o poeta e pensador indiano Rabindranath Tagore: “Se na sua sede por poder uma nação multiplica as suas armas ao custo de sua alma, então é ela quem estará em muito maior perigo que seus inimigos.”







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