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São Bento Ratzinger (a resposta moderna),
trabalho, humildade, saber e retidão
Arthur Ituassu
- 20/04/2005
Um indivíduo era necessário, alguém forte e sábio o suficiente
para disciplinar o impulso monástico, para moldá-lo ao tempo de um
império decadente, sedento por exemplos, ensinamentos e consolo
espiritual. Algo que só um movimento religioso organizado poderia
prover.
São Bento foi o ''indivíduo'', na passagem do século 5 para o 6
(480-547),
em meio aos últimos suspiros do Império Romano.
Bento, eternizado pelos Diálogos do papa São Gregório Magno
(590-604), nasceu em Núrsia, na Itália, na região de Umbria
(centro-Norte), ao que se diz no ano 480 DC.
Quando adolescente, viajou a Roma para estudar Direito e a
retórica, mas não se estabeleceu na cidade - então um ambiente de
disputas políticas e religiosas como o cisma de Acácia, o primeiro de
um longo período de conflitos doutrinários entre as Igrejas Ocidental e
Oriental, que culmina na separação.
São Bento preferiu a companhia de uma comunidade nos arredores da
capital romana, ao pé do monte Affile.
Foi no local que o Santo iniciou uma vida na qual a oração, o
silêncio e o estudo formariam as bases dos centros monásticos europeus
da Idade Média. Segundo os escritos de Gregório, foi também em Affile
que São Bento praticou o primeiro milagre, ao reconstituir com a
reza um utensílio de barro destruído por sua criada.
Não se sabe se pelo temor da veneração ou por qualquer outra
razão, o Santo deixou a comunidade após o fato e partiu sozinho para
Subiaco, onde se tornou o líder monástico histórico do catolicismo.
A filosofia monástica ganhou força e se tornou um movimento
social ao mesmo tempo em que as perseguições romanas aos cristãos
enfraqueciam, depois dos massacres realizados no Egito nos anos 240 e
304, quando milhares fugiram das cidades para evitar a morte.
Para os cristãos, de fato, o monastério se tornou uma opção ao
martírio. Os monges passaram a ser vistos como heróis. Segundo consta,
havia tantos no deserto quanto gente nas cidades egípcias, em 394.
No entanto, ainda não havia as regras fundamentais da vida
monástica. Dos Pais do Deserto egípcio à Irlanda dos séculos 6 e 7, a
história do cristianismo está recheada de brigas políticas e conflitos
religiosos que chegariam ao ápice na conversão do Império Romano,
quando, em 306, os cristãos se tornaram o Estado, por excelência, com a
chegada de Constantino ao poder.
Na Itália, a fama perseguia São Bento que recebia convites para
ser abade em vários monastérios. Quando resolveu aceitar um, em
Vicovaro, alertou aos monges que talvez não fossem capazes de agüentar
a austeridade da sua filosofia.
Dito e feito. Depois de um tempo, os monges tentaram matá-lo com
um cálice de vinho envenenado. Segundo a história, São Bento escapou
literalmente por um milagre, ao abençoar a bebida e torná-la assim
inofensiva.
As ruínas do monastério ainda podem ser visitadas. Em vez de
grandiosas, as fundações mostram pequenas cavernas de 1,80m de
profundidade por 2,5m de altura, com uma janela cada uma. Salas maiores
apenas para a Igreja e o refeitório.
Ao deixar Vicovaro, São Bento voltou a Subiaco, que viria a se
tornar sede dos monges beneditinos. No entanto, seu maior projeto ainda
estaria por vir: o monastério do monte Cassino, para o qual formulou as
famosas 73 regras para a vida de um monge cristão.
O texto não é um guia para clérigos nem a fundação de uma suposta
ordem global. É um conjunto de regras para a vida no monastério, para
indivíduos que optaram viver o mais perto possível de Deus. Um caminho
que passa pelo trabalho, pela obediência, pela virtude, pelo estudo. As
regras são um documento de como o Homem deve viver ao lado de Deus em
um mundo imperfeito.
''Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do
teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de
um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem
te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora
a minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias
vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência
para agir em nome de Cristo o Senhor, verdadeiro Rei''.
As regras são o único texto conhecido de São Bento, suficiente
para se estabelecer como paradigma monástico. Obra representativa do
Homem que foge das tentações de um mundo impuro e sem referência para
uma vida simples, retida e de oração, que leva, segundo os monásticos,
ao amor e ao paraíso.
''Devemos, pois, constituir uma escola de serviço do Senhor.
Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado.
Mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo
de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade não
fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre
senão por estreito início. Mas, com o progresso da vida monástica e da
fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor é percorrido o
caminho dos mandamentos de Deus''.
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