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O déficit
americano e o futuro do dólar
No início da semana passada, o governo
dos Estados Unidos divulgou números preocupantes sobre o crescimento do
déficit público americano para os próximos dez anos, como mostra matéria do Financial
Times. Segundo Washington, o
déficit público americano crescerá em 9 bilhões de dólares na próxima
década, atingindo o índice de 82% do PIB previsto para 2019.
O anúncio coloca mais lenha na fogueira que queima a credibilidade do
dólar no mercado internacional. A pergunta que paira é até que ponto os
agentes estarão dispostos a financiar o déficit americano sem
uma elevação da taxa de juros do país, que colocaria ainda mais em
cheque a cambaleante economia americana em crise. Sob o risco da perda
de valor, o governo chinês já deu indícios de que pretende
diversificar suas reservas nacionais, em torno de 2 trilhões de
dólares. Um artigo
de Paul
Krugman publicado em abril, no Estadão,
analisa a "armadilha de dólares" em que se meteram as reservas chinesas.
Sobre o futuro do dólar, vale a pena ler "O
novo paradigma para os mercados financeiros", de George
Soros, publicado no ano passado pela Agir. Diz Soros (p.150 da
edição brasileira): "Chegou ao fim um período de
sessenta anos de expansão do crédito baseado na exploração pelos
Estados Unidos, de sua posição no centro do sistema financeiro mundial
e de seu controle sobre a moeda de reserva internacional ... A
capacidade do Federal
Reserve de reduzir as taxas de juros será restringida pela falta de
disposição
do resto do mundo de reter dólares e obrigações de longo prazo
denominadas em
dólar".

Zelaya e o
paradoxo da reforma constitucional
Como mostra a Folha
do último domingo, o caso de Honduras expõe o paradoxo da reforma
constitucional com base em plebiscitos como solução para o atendimento
das demandas (legítimas, por sinal) de exclusão, em boa parte das
sociedades latino americanas. "Recurso a democracia direta em prol de
mudanças constitucionais na região pode ensejar ditadura
plebiscitária", diz o jornal.
De fato, as nações latino americanas
ainda não foram capazes de aliar liberdade com governos
socialmente justos. Neste momento, não seria o Brasil
exceção? Mais um motivo para não desandar pelo caminho de Hugo Chávez.
Já escrevi outra vez que acirrar
a polarização não é melhor caminho que a universalização dos bens
sociais gerados pelo Estado, a publicização
dos bens estatais, em regime de estabilidade institucional.

Waltz with Bashir
Andrew Natsios em Foreign
Affairs
Two weeks ago, the judges of the International Criminal Court (ICC)
announced what many had
long clamored for: an order for the arrest of Sudanese President Omar
Hassan al-Bashir, whom it indicted in July for the atrocities his
government committed against
the people of Darfur. As the administrator of the U.S. Agency for
International Development and then
the U.S. special envoy to Sudan, I have interviewed enough people in
Darfur over the past six
years to know that Khartoum committed terrible crimes, particularly in
2003-4, when it
tried to crush an insurgency through ethnic cleansing, ordering the
burning of villages, mass rape,
and the summary execution of young men it feared might join the rebel
movement. The question now
is not whether such crimes were committed -- they were -- but what
consequences the ICC's
latest action will have for justice, peace, and stability in Sudan.
They will not be good.
Leia
mais aqui.

A crise e o planeta dos macacos
A Bolsa era um prédio alto, envolvido
por uma atmosfera estranha, criada por um burburinho denso e confuso
que ia engrossando quando nos aproximávamos, até se transformar num
alvoroço ensurdecedor.
Entramos e logo nos vimos no centro do tumulto. Encolhi-me contra uma
coluna. Embora habituado aos indivíduos macacos, eu ficava atônito
sempre que tinha uma multidão compacta ao meu redor. Era este o caso, e
o espetáculo me pareceu ainda mais estapafúrdio que o da reunião de
cientistas, durante o famoso congresso.
Imaginem uma sala imensa em todas as suas dimensões, e ocupada,
abarrotada, por macacos berrando, gesticulando, correndo de maneira
absolutamente desordenada, macacos histéricos, macacos que não apenas
cruzavam-se e atropelavam-se no piso, mas cuja massa ululante
elevava-se até o teto, situado a uma altura que me dava vertigem. Pois
escadas, trapézios e cordas estavam dispostos nesse lugar e lhes
serviam a todo instante para se deslocar. Dessa forma, ocupavam todo o
volume do local, que assumia o aspecto de uma gigantesca jaula montada
para as grotescas exibições dos quadrúmanos.
Os macacos literalmente voavam nesse espaço, agarrando-se sempre a um
dispositivo no momento em que eu achava que iam cair; isto, num alarido
infernal de exclamações, interpelações, gritos e até mesmo sons que não
lembravam nenhuma linguagem civilizada. Havia macacos que latiam;
exatamente, que latiam sem razão aparente, lançando-se de um lado a
outro da sala, pendurados na ponta de uma corda comprida.
— Já viu coisa igual? — perguntou-me com orgulho o amigo de Cornelius.
Concordei de boa vontade. Eu precisava realmente de todo o meu
conhecimento prévio dos macacos para poder considerá-los criaturas
racionais. Nenhum ente sensato levado àquele circo podia escapar à
conclusão de que assistia aos embates de loucos ou animais furiosos.
Nenhum lampejo de inteligência brilhava nos olhares, e, ali, eram todos
iguais. Eu não conseguia distinguir um do outro. Todos vestidos da
mesma forma, usavam a mesma máscara, que era a da loucura.
Trecho do livro "O planeta dos macacos", de Pierre Boulle, de 1963,
publicado pelo selo PocketOuro da editora Agir, no final de 2008, com
excelente
tradução de André Telles.

Realinhamento partidário nos EUA
Este é um dos grandes temas pós-eleição de Barak Obama nos Estados
Unidos e que foi recentemente abordado por Barry
Gewen no blog Paper
Cuts, do New York Times.
Para muitos autores, o interregno conservador originado da crítica ao
New Deal de Franklin Roosevelt e cujo pontapé inicial na Casa Branca
foi a eleição de Richard Nixon, em 1968, pode ter chegado ao fim.
Isso explicaria, inclusive, a crise de credibilidade do governo Gerge
W. Bush, talvez último suspiro de uma onda conservadora-nacionalista
que nadou de braçada no contexto da Guerra Fria, utilizando-se de
ideais do moralismo tradicional americano, mas cujo arcabouço
ideológico se mostrou esgotado e incapaz de gerar respostas positivais
aos problemas contemporâneos, com ênfase especial no 11 de Setembro e
na crise econômica.
Vale lembrar que, na primeira metade do século XX, os Estados Unidos
eram um país
tradicionalmente conhecido como "liberal" - no sentido americano,
em oposição a "conservador" - e a maioria da população assim se
autodenominava politicamente, enquanto em 1970, a maioria dos
americanos
de forma voluntária se caracterizava como "conservadores". Em 2006,
como
mostra Barry Gewen, uma pesquisa da UCLA mostrou que 28,4% dos
entrevistados se denominaram "liberais", o maior índice desde 1975!
O tal "interregno conservador" é bem caracterizado pela eleição de
sucessivos presidentes republicanos: Richard Nixon, Ronald Reagan,
George Bush, George W. Bush. Entre o primeiro o último da lista, apenas
dois
democratas foram eleitos: Jimmy Carter e Bill Clinton. Carter é
considerado talvez o mais conservador presidente democrata desde a
Segunda Guerra Mundial e chegou à Casa Branca no contexto da renúncia
de Nixon e do escândalo de Watergate. Clinton foi e ainda é um fenômeno
de popularidade, e pode ter sido a primeira semente do realinhamento,
como fora Eisenhower antes de Kennedy.
Compare os mapas eleitorais americanos de 2000,
2004, 2004
por condado, 2006, 2008 e 2008 por
condado. Observações: 1) o Partido Republicano é sempre
representado pela cor
vermelha e o Democrata, pela azul; 2) No primeiro mapa, o de 2000,
estão representadas também as performances dos partidos nas cinco
eleições anteriores àquele ano; 5/5 significa cinco vitórias nas cinco
eleições anteriores; 4/5, quatro nas cinco anteriores; e 3/5, três nas
cinco anteriores.

Os filósofos e o amor (trecho)
Aude Lancelin e Marie Lemonnier
Tradução de André Telles
Um lugar-comum solidamente arraigado reza que amor e filosofia não se
dão bem. Quartos separados, pelo menos desde os tempos modernos. Ao
desencanto generalizado do mundo, o amor, sentimento mágico único,
teria resistido mal. O pequeno Cupido, de aspecto ao mesmo tempo pueril
e hostil, suas asas dissimulando um arco assassino, teria se juntado
aos outros deuses no cemitério das velhas inépcias. No fundo, a
tradição pessimista dos moralistas franceses teria vencido a batalha do
amor. Sob o romantismo ressabiado, subsistiria toscamente dissimulado o
real do sexo, do cálculo e da vontade de potência. O sentimento amoroso
então não mereceria duas horas de labor conceitual. Assunto central na
vida humana, não deixa de ser uma pequena surpresa constatar que o amor
é quase um terreno baldio sem herdeiros, abandonado aos romancistas do
niilismo sexual, aos sociólogos de uma nova “confusão amorosa”, ou a
uma religiosidade de fachada. Ninguém tenta efetivamente confrontar os
diferentes olhares filosóficos sobre o amor, a ponto de quase
encontrarmos mais profundidade sobre o tema nas canções populares que
nos pensadores contemporâneos.
Arthur Schopenhauer já exprimia com veemência essa estupefação em O
mundo como vontade e representação, publicado em 1818: “Deveríamos
principalmente nos mostrar surpresos que um objeto que desempenha papel
tão notável na vida humana não tenha sido tomado por assim dizer em
consideração pelos filósofos, apresentando-se a nós como disciplina que
ninguém explorou ainda.” Exagero, claro. Zombaria, até na medida em que
o filósofo prussiano acaba por reduzir a reflexão platônica a um caso
de amor homossexual grego. Mas é também apontar um autêntico mistério.
O paradoxo, com efeito, é que a filosofia, nascida na Grécia com a
questão do amor, qual a Vênus nascendo nua da concha botticeliana,
parece ter renegado essa origem. Por exemplo, seu iniciador, Sócrates,
afirmava no Banquete de Platão nada saber “exceto acerca dos assuntos
de Eros”. Uma declaração promissora sem conseqüência alguma. Assim, foi
preciso esperar Kierkegaard para que o amor voltasse a ser considerado
um modo de compreensão da existência.
Condição sine qua non da felicidade para a maioria dos homens, motivo
indefectível de todo drama literário, o amor é abordado pelos filósofos
gregos com a prudência de quem entra na jaula de uma fera prestes a
devorá-lo cru. Face a essa constatação, podemos aventurar-nos a todo
tipo de explicação. Preocupados em libertar o homem de toda alienação
mental, é compreensível que os filósofos gregos observassem com
circunspecção essa paixão estranha que pode levar alguém a morrer de
sofrimento. Num pensador do século I a.C. como Lucrécio, inspirado pela
velha ética grega, a ausência da perturbação é mesmo uma das metas da
filosofia. “Vazio é o discurso do filósofo se ele não contribuir para
curar a doença da alma”, afirma uma sentença epicurista. A essa
preocupação com a “vida correta”, os sistemas filosóficos modernos
deram as costas, sabemos disso. Mas em relação ao amor, e às paixões
ambíguas em geral, o reflexo arcaico permanecerá: o melhor que temos a
fazer é nos proteger a todo custo dessa energia dificilmente
controlável...
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