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  • Arthur Ituassu

A questão dos valores e o desafio da esquerda em 2018


Está no plano dos valores o principal desafio para a esquerda brasileira nas eleições de 2018. Quais os valores que poderiam constituir o campo da esquerda no atual contexto político no Brasil? Essa parece hoje uma pergunta sem resposta. Historicamente, os valores da esquerda brasileira sempre estiveram atrelados à questão do desenvolvimento econômico e da superação da pobreza por meio da intervenção do Estado. Esses ideais se consolidaram no Brasil ao longo do século XX, em contraposição a uma visão mais liberal, mais reticente, ao menos no discurso, do intervencionismo estatal na economia e na sociedade. Nesse contexto, de fato, a esquerda se tornou vitoriosa, e mesmo o regime militar adotou em geral um modelo mais próximo do desenvolvimentismo, como forma de inserir o país no rol das nações industrializadas e de fortalecer a "soberania nacional". Não é à toa que, originado em meio à ideologia desenvolvimentista industrial, o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus principais líderes muitas vezes fizeram referências elogiosas aos militares no campo econômico, em especial no que diz respeito ao chamado "milagre" de Ernesto Geisel. A partir do fim da Guerra Fria, no entanto, e das transformações no ambiente global, com o impulso da interdependência transnacional no campo do comércio, das finanças e da produção, iniciou-se no mundo todo, inclusive no Brasil, um amplo questionamento aos modelos tradicionais de gestão e inserção econômica, colocando em xeque a capacidade dos Estados de levar à frente políticas expansionistas desrespeitosas de um grau mínimo de responsabilidade fiscal (Sobre isso, ver "O Brasil depois da Guerra Fria"). As chamadas "reformas" e o tão atacado "neoliberalismo" são exatamente fruto desse contexto de transformações e vem daí a necessidade de Lula lançar uma "Carta aos Brasileiros", em 22 de junho de 2002, antes de ser eleito presidente pela primeira vez. Vale lembrar que, na carta, Lula não deixa de mencionar o campo das reformas, prometendo reforma tributária, reforma agrária, reforma da Previdência e reforma trabalhista: "O caminho da reforma tributária, que desonere a produção. Da reforma agrária que assegure a paz no campo. Da redução de nossas carências energéticas e de nosso déficit habitacional. Da reforma previdenciária, da reforma trabalhista e de programas prioritários contra a fome e a insegurança pública". No mesmo texto, Lula exibe também sua origem política logo no início, colocando a questão do desenvolvimento como prioridade entre os pontos levantados: "O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Mudar para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto almejamos". Em meio a tudo isso, a pergunta que fica é se o valor do "desenvolvimento econômico" pode ser ainda hoje um elemento constituidor viável das esquerdas para 2018. Em entrevista à Folha de hoje (22/06/2017), o ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro, militante histórico do PT, afirma que tem discutido uma frente ampla de esquerda em prol de uma perspectiva "desenvolvimentista nacional-popular". Na entrevista, Tarso Genro afirma: "Tenho participado de foros da esquerda para debater uma nova frente e um programa de transição de uma economia liberal-rentista, que nos sufoca, para uma desenvolvimentista nacional-popular, que privilegie a distribuição de renda e o emprego". Ora, será que o desenvolvimentismo pode pautar uma agenda de esquerda para o Brasil contemporâneo? O Brasil não parece um país pobre ou subdesenvolvido, mas sim um país fundamentalmente injusto, entre os mais injustos do mundo, o que, inclusive, reforça a necessidade de uma plataforma política de esquerda. No entanto, essa plataforma deveria superar a questão do desenvolvimentismo e se voltar fundamentalmente para as injustiças sociais, como a desigualdade latente de oportunidades, com foco na provisão com qualidade de bens públicos como educação infantil, fundamental e média, saúde pública, saneamento básico, segurança pública, acesso à justiça etc., problemas que não à toa se perpetuam mesmo depois de pelo menos 12 anos de governos de esquerda, talvez em função até mesmo do fato de que a esquerda brasileira permanece presa aos valores do passado. Do outro lado, para 2018, os ideais da direita parecem claros e consolidados, com uma agenda conservadora no que concerne aos valores da família e da sociedade e uma plataforma econômica ortodoxa à la David Ricardo, que serve muito bem ao propósito de se atacar o Estado, a política e a corrupção.