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  • Arthur Ituassu

A política no fim dos tempos


NOCAUTE Para o analista, o ritmo midiático frenético do novo governo surge como um nocaute, em noite de casa cheia. Nesse momento, o governo tem uma semana e o presidente foi desmentido por um secretário, uma ministra disse que meninos devem vestir azul e meninas, rosa, a nova chancelaria colocou o país no centro do conflito israelense-palestino, o filho do vice-presidente subiu de carreira meteoricamente numa instituição pública, o Planalto e o Ministério da Economia dizem coisas diferentes sobre o tema econômico supostamente mais urgente – a reforma da Previdência – e o Queiroz ainda não apareceu para depor. A montanha-russa, não à toa, lembra a campanha de Donald Trump, em 2016. Uma das coisas que se diz sobre essa campanha foi a capacidade de Trump comandar a pauta (agenda-setting), mesmo que com atrocidades em série, que, pelo teor jornalístico, acabam dando visibilidade ao candidato/presidente. Há pelo menos três casos da plataforma republicana de 2016 que são vistos como aberrações que teriam supostamente afundado qualquer campanha em outros tempos: 1) quando Trump questionou o passado heroico de guerra do republicano John McCain; 2) quando fez piada sobre um repórter do New York Times, portador de necessidades especiais; e 3) qualquer uma das declarações mais machistas do candidato. Nenhuma dessas atrocidades acabaram colando no político porque trata-se de uma estratégia tipo “rolo compressor”, com uma atrocidade atrás da outra em ritmo incessante. Nesse embaralhado, voltar atrás sobre os juros altos para a classe média na compra da casa própria é coisa pequena. PAUTAS Uma das piores consequências da comunicação rolo compressor de barbaridades é a desvirtuação completa da agenda pública. Em um país marcado por uma desigualdade alarmante, situações terríveis de saneamento, educação, transporte, saúde, segurança, os debates giram em torno de cores para crianças, o fim do comunismo, posse de armas e os valores da China maoísta. Em países onde o básico já funciona as consequências da desvirtuação são menores que aqui. FUTURO Como ouvi de um diplomata, o governo tem apenas uma semana. Sim, muito pouco tempo para qualquer julgamento. O país já teve presidentes bons e ruins, ministros bons e ruins. Alguns no governo Bolsonaro serão bons, outros serão ruins. Algumas coisas serão boas, outras ruins. Pode ser. Não estou tão otimista. Tudo parece disperso, fragmentado, por incrível que pareça, sem comando. Não sei como um governo assim pode durar quatro anos. A meu ver, com o andar da carruagem, a economia vai melhorar, mas haverá muita confusão e retrocessos graves em outras áreas, em especial na educação. POLÍTICA EXTERNA Nunca pensei viver para ver conservadores rompendo pilares tradicionais de atuação do Itamaraty. Por essas e outras que não considero esse governo como “conservador”, mas extremista. O envolvimento voluntário no conflito israelense-palestino com base em valores e ações sem propósito como a mudança da embaixada para Jerusalém mancha décadas de tradição intelectual e estratégica do Itamaraty, marcada pela prudência realista. Se o PT fazia ou não da mesma forma não faz qualquer diferença, o envolvimento direto do Brasil no conflito o torna potencial alvo de uma das partes – daí o sentido da prudência, não ser alvo de ninguém. Na segunda-feira, 18 de julho de 1994, às 9h53, um furgão branco carregado de explosivos se chocou contra o prédio da Associação Mutual Israelita da Argentina (Amia), em Buenos Aires, matando 85 pessoas e ferindo 300. Isso já aconteceu e foi logo ali. GOVERNO Ao que parece, e como já vem sendo falado por muitos, o governo Bolsonaro engloba vários governos: o governo da Economia, com a turma de Paulo Guedes, o governo de Moro, na Justiça, os militares, os filhos de Bolsonaro, o PSL e os políticos que o apoiam, para não falar da Michele. Supostamente, no centro de tudo, está o Messias, o capitão do time. A capacidade de Bolsonaro articular todos esses grupos é, a meu ver, diretamente proporcional à estabilidade desse governo. De um tucano histórico ouvi que, nesse sentido, “só um milagre pode fazer esse governo dar certo”. A ver..

Foto: Agência Brasil.