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  • Arthur Ituassu

Sérgio Moro em Brasília


Um dos argumentos mais repetidos na fala do ministro Sérgio Moro no Senado foi de que não há nada de mais no conteúdo das mensagens supostamente trocadas por ele e o procurador Deltan Dallagnol. Segundo o ministro, o tipo de relação entre juiz e procurador representado nas mensagens é comum na “tradição jurídica brasileira”. Chama a atenção o uso do termo “tradição” em seu argumento, utilizando-o como um instrumento de defesa da sua posição. A fala dá a entender que, se faz parte da “tradição”, não há nada de errado. O problema é que temos várias “tradições” que nos atrapalham, muitas vezes de maneira essencial. Por exemplo, temos uma tradição terrível de não respeitar as instituições e isso esteve por trás do Golpe de 64, do AI-5, da reeleição de Fernando Henrique Cardoso, do Partido que se sente mais importante que o país, da Nova Matriz Econômica, do impeachment da Dilma, da eleição de Bolsonaro e muitas coisas mais, incluindo um projeto anticorrupção no qual as autoridades envolvidas não se portam dentro dos limites estabelecidos pela Lei e pela ética. Temos também a tradição terrível de ser há muito tempo uma sociedade hiperconcentrada do ponto de vista não somente da renda, mas também dos direitos. Para muitos autores que estudam a América Latina, temos uma longa tradição de clientelismo, violência e corrupção (Lula não poderia argumentar que a corrupção faz parte da “tradição política brasileira”?). Como escreveu Eric Hobsbawm, em livro de 1983, as tradições são em certa medida uma “invenção”, não há nada de natural em nossas tradições. Elas também são uma construção social e podem servir para muitos propósitos, especialmente políticos, como ensina o 1984 de George Orwell e nos alerta Hannah Arendt, em todos os seus escritos. Na verdade, a fala de Sérgio Moro e sua defesa insistente com base numa suposta "tradição" são sintoma exato do que mais precisamos agora, isto é, pensar sobre nós mesmos.