• Arthur Ituassu

Lula, a derrota do PSDB e a “americanização” da política (e da comunicação)

Atualizado: Mar 11


O PSDB foi o grande derrotado da decisão do ministro Edson Fachin de anular as condenações de Lula na Lava Jato e tornar o ex-presidente elegível novamente. É claro que Ciro Gomes, Luciano Huck, Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta também saem menores, mas nenhum prejuízo nesse campo consegue ser maior que o do Partido da Social Democracia Brasileira. Isso se dá por dois motivos.


O primeiro deles diz respeito à polarização que se estabeleceu em 2018. É claro que há muita resistência ao termo “polarização” para interpretar o embate político entre Lula (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Há resistências quanto ao problema de uma suposta equivalência entre os dois polos, sendo que um deles demonstra projetos claramente antidemocráticos, antiliberais e anti-institucionais. Há resistências também daqueles que não veem opção em nenhum dos dois polos. Nada disso, no entanto, esvazia o fato de que o segundo turno de 2018 foi disputado entre o Partido dos Trabalhadores e Bolsonaro e, com a elegibilidade de Lula, há grandes chances disso acontecer novamente em 2022.


Nesse contexto, se, de fato, isso ocorrer, Lula e Bolsonaro disputarem o segundo turno das próximas eleições, estará estabelecida a substituição do PSDB por uma plataforma hiperconservadora como contraposição ao PT nos pleitos presidenciais. Com isso, o partido da social democracia acaba empurrado para a fragmentada “terceira via”, disputando espaço com uma série de partidos como PSB, PDT, Rede etc., bem como com as candidaturas de Ciro Gomes, Luciano Huck, Marina Silva etc.


Vale notar, a ideia de “terceira via” nunca foi bem sucedida nas eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização. Ao mesmo tempo, é difícil não pensar o quanto o próprio PSDB gerou sua derrocada, alimentando um antipetismo radical, questionando os resultados das eleições de 2014, apoiando ferrenhamente o impeachment de Dilma Rousseff e estando ao lado de Bolsonaro no segundo turno de 2018, como foi o caso do governador João Dória.


O segundo motivo do prejuízo maior tucano advém de uma hipótese, que é informada pela perspectiva da "americanização" da política (e da comunicação). A hipótese é a de que estaríamos desenvolvendo uma polarização no estilo norte-americano entre "conservadores" e “progressistas”, nos Estados Unidos chamados de “liberais”. O fenômeno, nesse sentido, teria relação direta com a derrocada do PSDB. Afinal, por mais que tenha tentado ser um partido “conservador”, a tradição da social democracia, mesmo a brasileira, é, de fato, "liberal" e "progressista", o que jogaria o partido para o polo da esquerda, junto com PT, PSB, Rede etc., talvez somente mais próximo do centro que todas essas agremiações.


Da mesma forma, o fenômeno da "americanização" poderia trazer impactos inclusive para a comunicação, já que a configuração norte-americana apresenta uma coocorrência entre polarização política e segmentação das audiências, repartidas, por exemplo, entre os canais de notícias FOX (conservador) e CNN (liberal). Caso a hipótese se confirme, a versão brasileira do fenômeno ( e a chegada da CNN corrobora isso) poderia ser a segmentação das audiências entre a Globo News e a CNN Brasil (ao contrário dos EUA, no lado mais conservador).


Essa nova dicotomia entre "conservadores" e "liberais/progressistas", se confirmada, substituiria a tradicional polarização entre "nacional-desenvolvimentistas", de um lado, e "liberais ortodoxos", do outro. Não à toa, um ponto em dúvida nesse processo diz respeito exatamente à economia. A polarização “liberais” e “conservadores” nos Estados Unidos apresenta consensos básicos sobre o funcionamento da economia, respeitando a ciência econômica e a autonomia dos quadros técnicos. Nesse contexto, é muito importante que os progressistas no Brasil se lembrem do sucesso de Lula com o liberal Henrique Meirelles na Presidência do Banco Central.

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