• Arthur Ituassu

Duas moquecas, 4 cervejas e a conta, com Rob Walker


Um almoço como teoria política.

R.B.J. (Rob) Walker é um dos principais teóricos políticos contemporâneos. Professor da Universidade de Victoria, no Canadá, escreveu Inside/Outside: International Relations as Political Theory, um clássico recentemente publicado no Brasil, e, há alguns anos, After the Globe, Before the World, ainda sem tradução para o português. Felizmente, ele vem à cidade uma ou duas vezes por ano, lecionar no Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.

Nossa conversa começou com um assunto banal, os preços no Rio de Janeiro. "Do jeito que estão, não sei se consigo continuar vindo ao Rio", disse. "Tudo está pelo menos 30% mais caro que no ano passado".

Falamos também da chuva. Comentei que, aqui no Brasil, alguns políticos estariam aliviados dela ter chegado ao Sudeste, referindo-me ao problema da água em São Paulo e da energia no país. Nesse momento, foi inevitável lembrar que a disputa pela água no planeta promete tensões, em um futuro próximo.

Na verdade, entreveros desse tipo já ocorrem em Israel, por exemplo, em torno do Rio Jordão, e Walker receia que os Estados Unidos terão grande interesse nas reservas de água canadenses, apenas não maiores que as nossas e as da Rússia. Apesar de também possuírem reservas expressivas, os americanos são os maiores consumidores de água do mundo.

Da água para o óleo, Rob Walker contou que as areias betuminosas do Athabasca, de onde se extrai petróleo, permitiram que o estado de Alberta tomasse a frente da antiga disputa política no Canadá entre Quebec e Ontario, e o produto disso foi um governo do tipo direita-conservador-texano, que substituiu o antigo Canadá liberal. "Vocês não temem o que o pré-sal pode causar a vocês aqui no Rio?", indagou.

Como quem foge da reta, perguntei se ele tinha lido o texto que havia lhe enviado no início do ano, uma versão em inglês de um trabalho que será apresentado no fim de maio, em Belém, na 23a Compós. O paper trata do campo teórico da e-Representação, no ambiente acadêmico da e-Democracia. "Li, mas deixei as anotações em casa", confessou. "No entanto, eu lhe diria uma coisa: o "e" é somente 2% do problema".

Ao fim, segundo Walker, estamos todos inseridos nas linguagens que se referem a Maquiavel, Hobbes e Kant. Quando falamos do demos, pergunta, que demos é esse? Ainda estamos na Grécia e sua cidadania restrita, vivemos ainda a metafísica e o elitismo tecnocrático platônico. Quem realmente tem capacidade de participar, deliberar ou mesmo interpretar a massa de informações que se encontra hoje na Internet?

Da mesma forma, a que nos referimos quando dizemos "o cidadão"? A um "objeto" da política, como pensou Maquiavel em O príncipe? A um "sujeito" à política (subject), que autoriza o poder, como concebeu Thomas Hobbes em seu Leviatã? Ou à capacidade de pensar por si mesmo, as subjetividades de Imannuel Kant? De algum modo, weberianamente falando, pouco importa o "e" se as condições materiais da sociedade não se alteram. Pelo contrário, se reproduzem na própria ação humana.

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