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  • Arthur Ituassu

Monitoramento digital


Iniciativa acompanha debates na internet sobre políticas públicas no período eleitoral.

Um dos projetos na Web mais interessantes em desenvolvimento nesta eleição vem de uma parceria entre a Diretoria de Análise de Política Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV) e o jornal O Globo. A iniciativa procura, por meio de softwares de busca e menções online, analisar o debate e a repercussão de temas de interesse público no Twitter e no Facebook, no contexto das eleições 2014.

Ao analisar a "segurança pública", por exemplo, o projeto identificou que os termos mais relacionados ao tema foram "medo", "assalto", "roubado", "estupro" e atos como "sair de casa" e "andar na rua". A iniciativa também monitorou a imagem da polícia, com resultados que a qualificam majoritariamente como "violenta", "corrupta" e "despreparada", e das UPPs, com quase 90% das menções sendo "negativas" a elas.

Outra análise interessante diz respeito ao contexto da morte do candidato Eduardo Campos, que mostra bem a velocidade dos debates na internet. Segundo a pesquisa, o tema foi do boato à notícia e, em seguida, ao desdobramento eleitoral, em menos de dois dias. Na página da parceria, é possível acessar todos os estudos feitos até agora que, além de segurança e a morte de Campos, já analisaram também temas como habitação, inflação e saneamento.

Apesar de louvável e digno de acompanhamento, é preciso uma certa cautela, no entanto, com projetos desse tipo. Em primeiro lugar, é necessário relativizar as conclusões a partir do fato de que não se trata "do debate público", mas de um fragmento do debate público, aquele desenvolvido na rede. Na verdade, não se trata nem mesmo do debate público "na internet", porque a análise é restrita às redes sociais, um campo importante da Web mas não sua totalidade. Tudo isso, claro, tem um impacto direto e significativo na representatividade dos debates desenvolvidos e analisados.

Da mesma forma, é preciso um certo cuidado com análises sustentadas em demasia por métodos quantitativos, que ressaltam o que está sendo debatido mas não tanto o "como está sendo debatido". Quando o projeto parece desenvolver interpretações mais qualitativas (como no caso da análise de sentimento sobre a polícia e as UPPs), provavelmente por meio de softwares, como é possível hoje, seria preciso ou no mínimo interessante que a metodologia utilizada nesses casos específicos estivesse mais clara e detalhada para o cidadão.

Nesse contexto, uma referência muito boa sobre projetos como esse e com amplo detalhamento metodológico pode ser encontrada aqui: VARGO, C.J.; GUO, L.; MCCOMBS, M.; SHAW, D.L. (2014) Network Issue Agendas on Twitter During the 2012 U.S. Presidential Election. Journal of Communication, vol. 64, n. 2, p. 296-316.

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